‘Filme’, de Lillian Ross

filme_lillian-rossLer Filme (Picture, 1952), de Lillian Ross, é ter a sensação de que não havia no mundo lugar mais interessante para se estar do que a Hollywood do início da década de 1950, aos 20 e poucos anos, como redatora da The New Yorker, testemunhando o processo de produção de um filme. E, de bônus, fundando o estilo jornalístico pelo qual Gay Talese e Truman Capote se tornariam famosos. Por aproximadamente um ano e meio, foi exatamente isso que Lillian fez.

O esvaziamento das redações foi um dos efeitos da Segunda Guerra Mundial. Com seus repórteres sendo enviados para o combate, os editores se viram obrigados a compor as equipes com mulheres. Foi nesse contexto que Lillian Ross chegou à The New Yorker, em 1945, por volta dos 18 anos de idade, contratada por Harold Ross, fundador e primeiro editor da revista.

Lillian estava no início de sua carreira na The New Yorker quando o diretor John Huston a convidou para ir a Hollywood e acompanhá-lo enquanto filmava o drama de guerra A glória de um covarde (The Red Badge of Courage, 1951), adaptação de O emblema vermelho da coragem, romance clássico da literatura norte-americana escrito por Stephen Crane e publicado pela primeira vez na íntegra em outubro de 1895. Ela havia entrevistado Huston para o artigo Come in, Lassie, sobre a lista negra do Comitê de Atividades Antiamericanas, publicado na edição de 21 de fevereiro de 1948. Impressionado com o trabalho da jovem jornalista, o diretor enviou ao editor Ross um telegrama elogioso.

Tendo em mente fazer um perfil de Huston (ela já havia experimentado o formato em How do you like it now, gentlemen?, artigo sobre Ernest Hemingway publicado no número de 13 de maio de 1950), Lillian aceitou o convite. No entanto, ao conhecer o restante dos envolvidos no projeto, percebeu que aquela experiência renderia mais do que o previsto. O que ocorreu é que, por cerca de um ano e meio, a jornalista acompanhou todas as fases da realização do filme — desde a confecção do roteiro, escolha do protagonista até as conturbadas pré-estreias e o lançamento em Nova York. Lillian transformou o material coletado com suas observações de bastidores (o que incluiu festas e reuniões) em cinco artigos publicados em edições consecutivas da The New Yorker em 1952 — mais tarde naquele ano os textos seriam reunidos no livro Picture, lançado no Brasil somente em 2005. Continuar lendo

‘A vida invisível de Eurídice Gusmão’, de Martha Batalha

capa-do-livro-a-vida-invisivel-de-euridice-gusmao-de-marta-batalha-1460662292967_300x420Eu me interessei por A vida invisível de Eurídice Gusmão antes do lançamento, quando li esta notícia do UOL sobre as dificuldades que a autora, Martha Batalha, enfrentou para publicar seu romance de estreia. O cenário da história — o Rio de Janeiro dos anos 1940 ao início dos anos 1960 — foi uma das primeiras coisas a me despertar curiosidade no livro. E também, claro, o assunto de que ele trata: a vida de duas irmãs de classe média que foram criadas para serem esposas e mães mas queriam mais do que a sociedade reservava às mulheres da época. O Rio, tempos mais antigos e a questão feminina são temas sobre os quais gosto bastante de ler. Talvez por ter criado expectativa, o livro me decepcionou um pouco.

Embora não apareça no título, Guida, a irmã mais velha, também é protagonista. Ela e Eurídice são as filhas de seu Manuel e dona Ana, um casal de portugueses que é dono de uma quitanda na rua Almirante Alexandrino, no bairro de Santa Teresa, onde a família mora. Antes de dar início à história, a autora avisa que o livro combina fatos e ficção. E identifica episódios presentes na narrativa que aconteceram de verdade: os corpos empilhados nas ruas da cidade em decorrência da gripe espanhola, o enriquecimento de um homem graças à produção de cerveja, as visitas de Villa-Lobos a escolas para divulgar o canto orfeônico, etc. Já as protagonistas são construções ficcionais inspiradas em pessoas reais. “Eurídice e Guida foram baseadas na vida das minhas, e das suas avós”, conta Martha.

A vida invisível de Eurídice Gusmão é sobre a invisibilidade da mulher numa época em que o esperado da figura feminina era que se dedicasse exclusivamente à família e aos afazeres domésticos. Quando menina, Eurídice demonstrava inteligência e talento para a música, mas adulta acabou casada com Antenor, técnico em contabilidade do Banco do Brasil que não aceita os projetos que ela cria, como publicar um livro de receitas ou ter um ateliê de costura na casa onde moram, na Tijuca. Ela tenta remediar a frustração lembrando que Antenor é um “bom marido”, o que significa dizer que “não sumia na rua em orgias e em casa não levantava a mão, ganhava bem, reclamava pouco e conversava com as crianças”. Em determinado trecho, Martha define Eurídice: “a mulher que poderia ter sido”. Continuar lendo

‘A garota no trem’, de Paula Hawkins

a-garota-no-tremEu estava na estação Carioca do metrô, no Centro do Rio, voltando do trabalho, quando vi pela primeira vez um cartaz de A garota no trem. Evito ter (muitos) preconceitos em relação a livros e a junção das palavras thrillerpsicológico me chamou atenção. Fiquei indecisa por um tempo, estive com o livro nas mãos e o devolvi à prateleira algumas vezes, mas um dia acabei comprando. Apesar da curiosidade, ele esperou alguns meses na estante de casa até que eu realmente mergulhasse na leitura.

A essa altura, todo mundo já deve saber do que se trata a trama. O romance de Paula Hawkins é centrado em figuras femininas. O suspense é narrado por três mulheres; uma delas é Rachel, a protagonista. Todos os dias, ela pega o trem das 8h04 de Ashbury para Londres. Rachel é relações públicas, está na faixa dos 30 e poucos anos, é alcoólatra – o que provoca nela constantes episódios de amnésia –, vista como mentalmente estável, foi largada pelo marido e pode ser um pouco paranoica às vezes. Ela está no fundo do poço e seu único interesse é observar pela janela do trem a paisagem que surge à margem da linha férrea. No percurso de todas as manhãs, ela passa por casas vitorianas geminadas. Por uma, em especial, Rachel tem obsessão: a de número 15 na Blenheim Road, em frente a um sinal onde o trem sempre para. É a residência de um jovem casal cuja vida ela idealiza a ponto de dar-lhes nomes. Para Rachel, eles são Jess e Jason e vivem um casamento perfeito.

Dias depois de flagrar uma cena inesperada na varanda do casal, Rachel descobre que Jess – que na verdade se chama Megan e é casada com Scott – está desaparecida. É a partir do sumiço dela que o suspense começa a se desenrolar. Megan, cuja vida está longe da perfeição imaginada por Rachel, é outra das narradoras do livro. A terceira é Anna, mulher de Tom, o ex-marido da protagonista. Anna e Tom são vizinhos de Megan e Scott. Eles moram com a filha bebê na casa de número 23, a mesma onde Rachel viveu com o ex até dois anos antes. Seja porque não consegue se desapegar do ex-marido, seja porque quer ajudar a localizar Megan, a vida de Rachel acaba se cruzando com a de todos os outros personagens. Mas o problema com a bebida faz com que ela não seja considerada uma testemunha confiável. Continuar lendo

Uma amizade improvável

uma-casa-no-meio-do-caminhoNo longa de animação Up – Altas aventuras, produzido pelos estúdios Pixar, o vendedor de balões Carl Fredericksen e sua esposa Ellie têm um sonho: mudar-se para o Paraíso das Cachoeiras, na Venezuela. No entanto, as obrigações financeiras que vão surgindo continuamente adiam os planos do casal. Um dia, os dois finalmente compram suas passagens, mas Ellie morre de velhice. Sem a companheira de toda a vida, Carl passa a viver sozinho, como um recluso. O tempo avança sem que ele tenha nada para fazer, enquanto a cidade cresce em volta de sua casa, a qual o viúvo se recusa a vender para a construção de um prédio. Quando Carl tem uma desavença com um trabalhador da construção civil, o tribunal ordena a ele que se mude para um asilo. Mas o ex-vendedor de balões quer realizar o sonho dele e da esposa, e usa seu velho material de trabalho em uma invenção. Com milhares de balões de gás, o viúvo improvisa um dirigível que arranca a casa do chão e a faz flutuar céu afora.

Em 2009, na época do lançamento, a Pixar afixou dúzias de balões coloridos a uma pequena casa na cidade de Seattle, nos Estados Unidos, para promover o filme. Coincidentemente, a história da residência em questão tem muito em comum com a da casa de Carl, o viúvo de Up. Até o ano anterior, aquele havia sido o endereço de Edith Wilson Macefield, uma senhora que conquistou admiradores em todos os cantos do mundo ao se recusar a vender sua casa centenária para a construção de um shopping. Nem mesmo uma oferta de um milhão de dólares pelo imóvel fez a cabeça de Edith. Na ocasião, ela declarou a um jornal americano: “Eu não quero me mudar. Não preciso de dinheiro. Dinheiro não significa nada”. Continuar lendo